Em São Paulo, outubro é o mês em que a conta chega. Você sai de casa às sete com o cabelo limpo e preso, passa o dia com 31 graus e umidade alta, e às cinco da tarde a raiz está úmida, coça na linha da nuca e tem um cheiro que você sente quando solta o elástico. Na semana seguinte você compra outro shampoo.
Esse é o ponto que quero defender aqui: o problema de outubro quase nunca é o shampoo. É o que acontece debaixo do cabelo preso, com dois fluidos diferentes que a gente trata como se fossem um só.
Suor e sebo não são a mesma coisa, e isso importa na prática
O couro cabeludo tem duas fontes de produção distintas trabalhando ao mesmo tempo. As glândulas sudoríparas écrinas produzem suor, cuja função é resfriar a pele por evaporação. As glândulas sebáceas, que ficam acopladas a cada folículo, produzem sebo, cuja função é manter a barreira lipídica da pele.
| Suor | Sebo | |
|---|---|---|
| Composição | cerca de 99% água, com sal, ureia, lactato e aminoácidos | mistura de gorduras: triglicerídeos, ácidos graxos livres, esqualeno, ceras |
| O que o dispara | temperatura, esforço físico, estresse agudo | hormônio e genética, com produção contínua |
| Sai com água só? | sim, é solúvel em água | não, precisa de tensoativo |
| O que deixa para trás ao secar | sal, que é higroscópico e irrita | filme que oxida e gruda a célula morta |
Leia a terceira linha de novo, porque é dela que sai a parte útil deste texto. Suor sai no enxágue. Sebo não sai sem shampoo.
O calor piora os dois, mas por caminhos diferentes. Você sua mais porque o corpo precisa resfriar. E o sebo fica mais fluido com o aumento da temperatura da pele, o que faz a mesma quantidade produzida se espalhar mais rápido e dar sensação de raiz pesada mais cedo.
O que de fato cria a coceira e o odor
Nem suor nem sebo, isoladamente, incomodam tanto. O que incomoda é a combinação com oclusão.
Cabelo preso ou molhado por horas mantém a superfície do couro cabeludo úmida e sem ventilação. Isso eleva a hidratação da camada mais externa da pele e cria exatamente o ambiente em que dois moradores normais do couro cabeludo se multiplicam acima do habitual: as bactérias da flora da pele e a Malassezia, uma levedura lipofílica, ou seja, que se alimenta de gordura.
A Malassezia não digere o sebo inteiro. Ela quebra os triglicerídeos e libera ácidos graxos livres, entre eles o ácido oleico, que é irritante para a pele de quem tem predisposição. Daí vem a coceira que começa no fim da tarde, e daí vem a descamação que aparece depois de alguns dias de calor.
O odor tem outra origem: é produto da ação bacteriana sobre os componentes do suor e da oxidação dos lipídios do sebo em contato com ar e luz. Um couro cabeludo que ficou úmido e abafado oito horas tem odor por razões químicas, não por falta de higiene.
Some a isso o ponto que mais me interessa na leitora que já tem queda: o elástico apertado todos os dias, puxando o mesmo ponto da linha frontal e da nuca, sobre uma pele úmida e macerada. Tração constante em pele inflamada é a receita de foliculite e, repetida por anos, de alopecia de tração.
Trocar de shampoo toda semana é o que mais custa tempo
A crença comum é que couro cabeludo oleoso de verão pede um shampoo mais forte, e que se não resolveu em dez dias é porque o produto não era bom. As duas partes estão erradas.
Um shampoo de limpeza profunda usado todos os dias remove sebo e remove lipídio de barreira junto. A pele responde ressecando, descamando e inflamando, e um couro cabeludo inflamado produz mais sebo. Você troca de produto achando que piorou por acaso.
E um ativo antifúngico, como o piritionato de zinco ou o cetoconazol, precisa de tempo de contato e de algumas semanas para mostrar o que faz. Quatro semanas é o mínimo honesto para avaliar. Quem troca a cada dez dias nunca dá a nenhum produto a chance de funcionar, e no fim do verão tem cinco frascos pela metade e o mesmo sintoma.
O ajuste que resolve a maior parte dos casos
Comece pelo que é de graça:
Enxágue sem shampoo nos dias de muito suor. Água morna, três ou quatro minutos, com a polpa dos dedos trabalhando o couro cabeludo. Isso remove o sal do suor, que é o que mais irrita. Condicionador do meio para as pontas depois, e está resolvido sem precisar lavar duas vezes no mesmo dia.
Seque a raiz, não só o comprimento. Secador em ar frio ou temperatura baixa, afastado, com os dedos abrindo a raiz. Couro cabeludo seco não abafa.
Nunca prenda o cabelo úmido. É o gesto que cria o ambiente inteiro descrito acima, e é o mais fácil de abandonar.
Troque o penteado de lugar. Alterne o ponto do elástico, use prendedor mais largo, deixe mais frouxo. A tração não precisa doer para fazer dano.
Duas aplicações curtas de shampoo, não uma esfregada longa. A primeira emulsiona o sebo, a segunda limpa.
Shampoo a seco não substitui nada no calor. Ele absorve gordura. Não tira sal, não tira suor, e em dia abafado só acrescenta uma camada no que já está ocluído.
Se houver descamação e coceira persistentes, um shampoo com antifúngico duas a três vezes por semana, deixado agir de três a cinco minutos antes de enxaguar, alternado com um shampoo suave nos outros dias. Mude uma coisa por vez e dê quatro semanas.
Se a queda aumentou junto, o calor não é o réu óbvio
Existe literatura descrevendo variação sazonal na proporção de fios em fase de repouso, com aumento de queda alguns meses depois do pico. Mas o intervalo entre causa e queda é de dois a quatro meses, o que torna o calor da semana passada um suspeito ruim para a queda desta semana.
O que o calor faz de fato, e rápido, é agravar inflamação no couro cabeludo e aumentar tração por causa do cabelo preso. Essas duas coisas sim pesam na queda, e as duas são tratáveis.
Quando o caso é de dermatologista
Procure médico, sem passar por salão primeiro, se houver pústula com dor, ferida que não fecha, secreção, odor forte localizado em um ponto só, placas espessas que não mudam em seis semanas de rotina correta, ou falha visível no cabelo com a pele lisa e brilhante no centro. Nada do que está neste texto substitui consulta, e terapia capilar é serviço estético que atua no couro cabeludo como apoio, não em lugar do tratamento médico.

Se quiser conversar sobre o seu caso
A avaliação capilar olha o couro cabeludo com tricoscópio, um aparelho que amplia a imagem na tela enquanto você acompanha a tricoscopia junto com a profissional. Dá para distinguir descamação seca de descamação oleosa, ver se há inflamação ao redor dos folículos, se existe afinamento na linha onde o elástico senta, e se a queda que você está notando tem relação com o que acontece na pele.
São R$200, creditados integralmente no protocolo, se houver protocolo. Medimos de novo durante ou na última sessão e comparamos com a imagem do primeiro dia. Sem custo adicional.
Atendimento no Tatuapé, de terça a sábado, das 9h às 18h, com hora marcada. Terça é o dia reservado para terapia capilar.